Diário de um engenheiro mecânico: 2019, um ano de Elementos de Máquinas, Vibrações Mecânicas e Porsche Cup

Em 2019 eu tinha apenas uma meta: me formar com pelo menos um artigo científico publicado. A verdade é que eu já tinha desistido da minha meta maior que é chegar na Fórmula Um. E decidi, inconscientemente diga-se, que me dedicaria a algum mestrado na área automobilística, pois isso talvez me deixasse mais próximo da F1. O problema desse ano é que eu tinha duas cadeiras importantes para ser aprovado, elementos de máquinas 1 e 2. Cadeiras nas quais eu carinhosamente chamava de elementos 1: a missão e elementos 2: a revanche do cad. A cadeira das gaivotas (quem conhece sabe.) era dada, até 2017-18 creio, por um único professor…vamos denominá-lo de cad. Embora eu creia que ele adoraria ser mencionado. O cad é aquele professor que todo mundo odiava, extremamente rigoroso com a correção das provas. Some a isso uma peculiaridade das cadeira de EM, as questões são extensas, trabalhosas e exigem do aluno boa base nas cadeiras de mecânica do sólidos.

Passou em elementos com o cad ?

Nessa época estava (e ainda está…) impregnado em mim a filosofia de que nota boa é só uma, a máxima. Eu entrei no ano letivo de 2019 fazendo elementos 1 e outras cadeiras 3 cadeiras, uma delas, motores térmicos (MT). Nesse momento meu coração ficou dividido, o sofrimento dos cálculos de fadiga em EM1 ou o angustia dos cálculos de combustão em MT pediam uma prioridade, um foco. Não dava para conciliar as duas 100%, mas eu tentei, muito. Em EM1 bastava errar um carregamento logo no começo da questão para sair errando tudo, e em MT bastava um variável errada no calculo de combustão para descobrir no final da prova que errou.

Nesse caso aí, entra o professor MT. Tenho que abrir um parênteses sobre esse professor. Nessa época eu estava como estagiário no laboratório de motores da UFC. Vamos chama-lo de… o Curitibano. O Curitibano é um professor muito peculiar, dono de um conhecimento estupendo nas mais variadas áreas da engenharia, vasto conhecimento em termodinâmica e o que mais me fascinava, uma criatividade de desenvolver mecanismos e dispositivos para fazer acontecer suas pesquisas. Ele era o que eu desejava ser. O curitibano tinha minha admiração. Apesar disso, quem já trabalhou em laboratório de universidade federal sabe que você fica por dentro de TODAS as intrigas entre professores do centro acadêmico e nesse ponto o curitibano mostrava o outro lado das suas peculiaridades. Eu nunca ouvi tanto na minha vida a palavra “processo” (no sentido de processo judicial) como nessa época.

Pois bem, voltando as cadeiras. Estava se dedicar a EM 1 e MT, some isso às atividades do laboratório de motores, e pronto, eu vivia exausto. Eu era comumente visto na biblioteca da hidráulica, que tinha uma salinha de estudo fantástica. Um ar condicionado gelador (coisa rara em Fortaleza/CE) e um wifi decente dentro do Pici. Eu chegava na ufc as 8 h da manhã ia direto para a biblioteca, zoava a bibliotecária, que é minha amiga até hoje, e começava o açoitamento intelectual. Depois disso eu ia para as aulas, laboratório e finalmente por volta das 18 h eu voltava pra casa. Terminava o dia destruído.

Com a minha fixação pelo dez em todas as cadeiras, eu passava o fim de semana estudando e pouco me divertia. E nesse ponto entra uma entidade importante, a Psicóloga… a chamarei desta forma, mesmo. Eu já me consultava com ela há cerca de 1 ano e meio, então ela já entendia mais ou menos como era a minha bagunça. A Psicóloga conseguiu me convencer a descansar durante os fins de semana. Se por um lado eu descansava minha mente, por outro eu me via em um vazio no qual eu até hoje não consigo escapar em momentos de lazer. É uma sensação de não saber o que fazer e de perda de tempo, pouca produção. Isso era, e ainda é porém menos, muito sofrido para mim, mas reconheço como me ajudou a superar cadeiras tão difíceis com o um desempenho…medíocre. Chamo assim pois o máximo que eu conseguia era um 7-8 nessas cadeiras, apesar de tirar 10 em uma prova de MT, essa não conta, pois foi um trabalho, embora tenha sido bem difícil. No fundo, meu sentimento quando o semestre acabou é que eu não fiz nada além da minha obrigação, e isso me irrita. Como é que eu vou chegar na F1 fazendo as coisas dessas forma ? Enfim, vida que segue.

Comecei no mês de Julho de 2019 indo para ufc todo os dias, trabalhando no laboratório de motores. Entretanto, algo não me agradava, a baixa perspectiva de publicação de um artigo. Contudo, passei o mês trabalhando lá, estudando um software bem difícil chamado Kiva, que aparentemente tinha o foco em simulações de combustão em motores de combustão interna. O software utiliza programação por fortran. E não deu outra, eu não consegui aprender nada. Foi um mês frustrante e a partir dali eu tinha a notória sensação de que minha carreira já tinha ido para ralo. Se eu conseguisse voltar para a finada Troller – Ford, seria no mínimo, ok.

Entretanto, teimoso que sempre fui e meio que adorador do autoflagelo acadêmico, entrei no semestre de 2 de 2019 fazendo EM 2 e outras cadeiras pendentes. Finalizando 2019 passando me colocaria como engenheiro mecânico formado no final de 2020.1. Os semestres na ufc eram sempre assim, angustiantes, pois eu me dedicava exageradamente e as notas eram sempre medianas, entre 6 e 8. Frustrante. A Psicóloga sempre colocou para mim que essa forma de avaliar era errada, o importante era passar, empresava nenhuma vai avaliar o profissional pelas notas. Só que no meu caso, eu queria (e quero ainda…) chegar na F1, notas medianas não são uma opção, passar somente, não é uma opção. E assim, eu segui até o fim de 2019, porém…

Um belo dia do mês de Agosto ou Setembro fui abordado por um rapaz de um outro laboratório, o de vibrações. Um homem novo, 22-24 anos, não sei ao certo, branco, gordo, de voz grave. Foi direto ao ponto, ao me chamar para estudar no laboratório de vibrações, pois havia um grupo de professores e alunos pesquisando simulações de ruídos de freios. O Anderson do passado, quando era um jovem mancebo de 20 e poucos anos, sempre tomava decisões no ímpeto, em momentos de ansiedade extrema. Mas o Anderson deste passado de 2019 disse que ia pensar na proposta, onde na verdade já tinha topado. Se em um ano de laboratório de motores eu não havia publicado nada, estava com baixas perspectivas e no ano seguinte eu me formaria (só que não quando eu previa…), não era má ideia tentar um novo laboratório. Contei 2 ou 3 dias e chamei o… o chamarei de Lombarde devido a voz grave e de presença, para dizer que aceitaria. Comuniquei ao curitibano, que ficou bem chateado, me deu excelentes conselhos motivacionais e mudei de vez para o laboratório de vibrações.

O Labvib é só boas memórias.

Nesse laboratório eu conheci profundamente a trinca de professores que jogam os alunos para cima. E aqui, nesse caso, vou usar os nomes reais, devido a minha extrema gratidão a eles. O Lombarde me apresentou os três e logo fiquei sabendo do que se tratava a pesquisa, ruídos de freios do tipo squeal e o fenômeno do stick-slip. Meu trabalho era desenvolver uma máquina para fazer os experimentos do stick-slip e em paralelo configurar as simulações de squeal em freios a tambor. O professor Rômulo foi bem objetivo, seu trabalho é fazer uma simulação do freio a tambor com o código do Lombarde para a gente fechar todos os tipos de freios. E assim fechou o grupo de pesquisas de freios, o Lombarde com freios a disco de motocicleta e o projeto da máquina de teste de freios, eu com os freios a tambor e máquina do stick-slip e o…chamarei de Chico, com a simulação de freios a disco automotivos. O Chico cabe uma observação interessante, ele tinha tanta ojeriza ao professor cad, que só em mencionar o nome cad ele já se tremia todo. Eu via a fragilidade dele. Atualmente o Chico acredita que CAD e EM foram sofrimentos necessários. E eu concordo.

Minha máquina do stick-slip em fase final de montagem.

Dessa forma, a minha angustia em 2019.2 duplicou. EM 2 ou minha pesquisa, quem tinha prioridade ? A psicóloga me fazia perguntas pertinentes: “O que é mais importante para você ? Os artigos para seu mestrado ou se acabar para tentar tirar nota máxima onde você precisa apenas passar ?” Eu sempre quis responder para ela “as duas coisas”, mas tanto eu como ela sabíamos a resposta, eram os artigos. O semestre chegou ao fim, passei em EM 2 e me livrei de vez de todas as cadeiras “cadianas” e dei um passo largo rumo a formação, pois também quebrei pré-requisitos importantes para me formar no tempo que eu previa.

Nesse período aconteceu uma coisa impensável para mim, eu conheci a Karol. Moça jovem, bonita, 19 anos, morena, de falar baixo e compassado. Quando eu a conheci eu não namorava há quase cinco anos. Foi a primeira vez que eu cogitei namorar alguém depois de tanto tempo, pois nunca tive sensação de acolhimento tão boa, aconchegante. Contudo, eu pensava muito no futuro, no meu sonho de chegar a F1 e meu foco era, de alguma forma estudar fora do Brasil. Esse conflito não saia da minha cabeça pois a cada dia com ela, eu me envolvia mais, porém não tomava nenhuma atitude que mostrasse a ela que teríamos algo sério. Não deu outra, um tempo depois ela decidiu que era melhor pararmos. Eu sempre tive a impressão de que podíamos continuar, bastava eu me posicionar, mas a deixei ir. Isso, mais tarde, se revelaria a melhor decisão. Ainda falo com a Karol, eu a quero muito bem.

Em meados de Dezembro eu aprontava minhas malas para o curso da Porsche Cup, em São Paulo, na sede da categoria. Era a primeira vez que eu fazia um curso do ramo. Seria uma luz no fim do túnel da minha finada carreira ? Não sei, mas antes de partir, eu já sonhava. Porém sempre colocava os pés no chão, pois quem tem expectativa alta sabe que a queda é alta e com sérios riscos de quebrar o coques. Nesse curso eu conheci a profissão de racing engineer. O profissional trabalha junto ao piloto, passando feedback sobre seu desempenho, alterando o acerto do carro, definindo estratégias de corrida e paradas de boxes. Tudo que eu queria. Eu estudei tanto nessa viagem, que pouco a aproveitei. Aliás, isso é uma coisa que sinto quando estou completamente focado, a total desconhecimento do que acontece no mundo exterior a sua bolha. Foram 15 dias em São Paulo acordando cedo e estudando horrores para passar na prova que seria em Janeiro. Se eu passasse, assumiria uma das 3 vagas que a categoria parece sempre ofertar todos os anos.

Chegava ao fim meu ano de 2019, que no fim das contas apresentava uma luz no fim do túnel para a minha então fatídica carreira: possibilidade de publicação de artigos em 2020 e de trabalho na Porsche Cup. Eu terminei o ano insatisfeito com meu desempenho nas provas, extremamente ansioso com os artigos e com uma recomendação de ir ao psiquiatra dada pela Psicóloga, mas no fundo, eu pelo menos sonhava com uma mudança em 2020. A mudança veio, mas não era nem de longe o que eu planeja. Aliás, não era nem de longe o que população global esperava, mas isso é assunto para o próximo texto.