Engenharia Automotiva na Itália – Parte 5: QUANDO A BATERIA SOCIAL é BAIXA, O CARREGADOR é A SOLIDÃO

A jornada acadêmica e profissional no exterior é repleta de desafios técnicos, culturais e pessoais. Neste artigo, compartilho uma experiência marcante vivida durante meu mestrado em Engenharia Automotiva na Itália, que vai muito além dos carros e da tecnologia: trata-se de autoconhecimento, limites pessoais e a importância de saber equilibrar oportunidades com bem-estar.

Oportunidade na Pagani Automobili

Durante o primeiro ano do curso na Universidade de Modena e Reggio Emilia, surgiu uma oportunidade única: atuar como guia voluntário no museu da Pagani Automobili, uma das marcas mais exclusivas do mundo. A proposta era simples na teoria, mas exigente na prática: conduzir visitas guiadas, apresentar a história da empresa e interagir com turistas e entusiastas.

O processo seletivo envolveu envio de currículo, carta de motivação e uma dinâmica de grupo simulando situações reais de atendimento. Apesar da estranheza inicial com a simulação, fui aprovado e recebi um caderno com a história de Horacio Pagani para estudo. A preparação exigiu dedicação e até algumas ausências em aula, algo difícil para quem valoriza disciplina acadêmica.

Primeiras Experiências e Reflexões

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Meu primeiro tour foi com um grupo internacional, incluindo suecos e mexicanos. Conduzir a visita exigiu não apenas conhecimento técnico, mas também habilidade para improvisar e manter a atenção dos visitantes. A história de Horacio Pagani é inspiradora, mas percebi que o glamour atribuído à indústria automotiva nem sempre corresponde à realidade. Por trás dos supercarros, há processos industriais comuns e muito trabalho árduo — algo que já havia constatado em experiências anteriores no setor.

Essa percepção reforçou uma ideia que me acompanha: o automóvel é um produto, e o valor que lhe atribuímos é, muitas vezes, simbólico. A engenharia por trás dele, sim, é fascinante.

Eventos em Milão: Entre Luxo e Contraste Social

Além dos tours, participei de eventos em Milão, incluindo exposições e o aguardado lançamento do Pagani Utopia. Foram dias intensos, com protocolos rígidos e contato com a elite italiana. No entanto, um episódio marcou profundamente: enquanto um carro milionário atraía olhares e flashes, um homem em situação de rua buscava comida em uma lixeira próxima. Esse contraste social foi um choque de realidade e gerou uma reflexão sobre prioridades e desigualdades.

Por trás das luzes e do luxo, há uma realidade que não pode ser ignorada. Esse momento, que gostaria de ter registrado em foto, seria a imagem perfeita para ilustrar a distância entre ostentação e necessidade.

O Lançamento do Utopia e os Bastidores

O evento de lançamento do Pagani Utopia foi grandioso, realizado em um teatro em Milão. A equipe tinha a missão de organizar o fluxo de convidados e garantir que tudo ocorresse conforme o protocolo. No entanto, quando o carro foi revelado, todos — inclusive nós, voluntários — se renderam à curiosidade e começaram a fotografar, gerando uma confusão logística.

Houve também um encontro com Horacio Pagani, que, fiel ao estilo das empresas familiares, não perdeu a oportunidade de pedir um “favor”: limpar o carro para uma apresentação. Um gesto simples, mas que reforça como, mesmo em ambientes glamorosos, as demandas podem ser triviais.

Impacto Pessoal: A Bateria Social e a Decisão Final

Essas experiências foram enriquecedoras, mas também desgastantes. Descobri, na prática, o que chamo de “bateria social baixa”: após horas de interação superficial, minha energia se esgotava completamente. Voltei de muitos eventos exausto, ansioso para retomar meus estudos e minha rotina.

Com o tempo, percebi que insistir nesse tipo de atividade não fazia sentido para meus objetivos. Embora tenha praticado italiano e vivido momentos únicos, decidi encerrar minha participação nos eventos para focar no que realmente importava: minha formação acadêmica e meu futuro profissional.

Lições Aprendidas

Essa experiência trouxe aprendizados valiosos:

  • Reconheça seus limites: oportunidades são importantes, mas não devem comprometer sua saúde mental.
  • Nem tudo é glamour: por trás das marcas icônicas, há processos comuns e desafios como em qualquer indústria.
  • Autoconhecimento é essencial: saber quando dizer “não” é tão importante quanto aceitar um convite.

Mais do que uma história sobre carros, esta é uma reflexão sobre equilíbrio, propósito e autenticidade.