Engenharia Automotiva na Itália Parte 7: AULA, CIDADE e ANSIEDADE NOVAS, MAS NADA NOVO SOB O SOL.

Mudar de cidade costuma carregar aquela aura de recomeço, renovação e possibilidade. Mas quem vive um mestrado exigente — e ainda depende de bolsa de estudos — sabe que a logística, a pressão e o cansaço não desaparecem com uma simples viagem de trem. No sétimo capítulo da série Engenharia Automotiva na Itália, compartilho a fase em que deixei Modena e iniciei minha rotina em Parma, vivendo um semestre que me marcou pela intensidade acadêmica, desgaste psicológico e pela sensação constante de estar correndo atrás do próprio fôlego.

Chegada a Parma: cidade nova, ansiedade idem

Depois da Summer School em Bertinoro, voltei para Modena sabendo que teria apenas uma semana até a mudança definitiva para Parma. No dia 1º de agosto, ainda de madrugada, deixei o apartamento, arrumei malas e sacolas às pressas e segui para a estação. A primeira aula seria já naquele dia, em Fornovo.

Chegando lá, me deparei com o primeiro obstáculo: não havia ônibus que levasse até a Dallara. O Google Maps apontava um trajeto de 8 km. Diante da falta de alternativas, comecei a caminhar. No meio do caminho, um estudante me reconheceu e me ofereceu carona. Esse encontro inesperado mudaria minha rotina: a partir daquele dia, passei a ir para as aulas diariamente com ele e outra colega, contribuindo com os custos de combustível.

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Enquanto tentava me adaptar à nova cidade, às novas pessoas e ao novo transporte, percebia que as ansiedades também eram novas — mas a sensação de tensão era familiar. Parma seria meu novo ponto de partida, mas o esgotamento emocional do primeiro ano ainda estava fresco.

O curso na Dallara: uma experiência única, mas esgotante

As aulas na Dallara têm uma atmosfera muito particular. Localizadas dentro do museu da empresa, são ministradas em auditórios modernos, com vista para a fábrica e com acesso ao simulador do Dallara Stradale — um charme à parte para estudantes apaixonados por engenharia automotiva.

Nesse semestre, cursei cinco disciplinas:

  • Chassis Design
  • Dynamic Control
  • Aerodinâmica
  • Materiais Compósitos
  • Racing Tires (cadeira eletiva)

A carga horária era intensa: aulas de segunda a sexta, das 8h às 18h. Para cumprir esse ritmo, eu acordava diariamente às 5h, pegava o primeiro trem até Fornovo, esperava pela carona, assistia às aulas, e depois retornava para Parma, chegando ao alojamento invariavelmente por volta das 19h ou 20h.

Mesmo exausto, eu ainda estudava. Mas o cansaço era tanto que muitas vezes o estudo não rendia — o cérebro simplesmente não absorvia mais nada.

Chassis Design: a cadeira mais marcante

Dentre todas as disciplinas, Chassis Design foi a que mais me desafiou e, paradoxalmente, mais me ensinou. Com uma abordagem prática, dois professores conduziam a aula como se fosse um teatro técnico: discutiam falhas, mostravam modelos, analisavam projetos reais e provocavam os alunos com perguntas incisivas.

Essas provocações exigiam participação ativa, e eu me sentia pressionado a falar. Nem sempre minhas colocações eram brilhantes — ao contrário, muitas vezes me sentia um imbecil pelas perguntas que fazia. Mas era justamente esse desconforto que me mantinha atento e me permitia aprender. Ao final do semestre, percebi que esta era a única disciplina da qual realmente havia absorvido algo em sala de aula.

O contraste entre teoria e prática

As outras disciplinas, embora importantes, sofriam de um problema comum na pós-graduação: excesso de conteúdo, falta de didática e uma expectativa de que o aluno absorvesse PDF atrás de PDF. Aerodinâmica, por exemplo, queria abarcar tudo — cálculos, CFD, teoria — mas acabava não oferecendo profundidade suficiente em nenhum ponto.

Materiais Compósitos seguia o mesmo caminho, propondo desde microestrutura até impactos de alta energia dentro de uma única cadeira. O resultado era frustrante: por mais que eu quisesse aprender, o volume e a falta de estrutura didática tornavam a disciplina quase impraticável.

Ainda assim, tentei acompanhar tudo. Mas a sensação constante era a de estar sempre ficando para trás.

O impacto psicológico: terapia, cerveja e sobrevivência

Parma, apesar de charmosa e culturalmente rica, foi cenário de um período emocionalmente difícil. Pressionado pelas aulas, pelo excesso de provas acumuladas e pelo medo constante de perder a bolsa de estudos, encontrei refúgio inesperado… em um bar.

Explorando a cidade, encontrei o Tapas, um bar amadeirado, aconchegante, cujo dono era casado com um brasileiro. A recepção calorosa, o ambiente acolhedor e — principalmente — os aperitivos generosos servidos com a cerveja criaram ali um pequeno porto seguro para o fim de dias exaustivos.

É importante mencionar que faço terapia há anos, e esse semestre consolidou o quanto ela era essencial. O bar não substituía o suporte profissional, mas funcionava como um momento diário de decompressor emocional.

Sim — nesse semestre, bebi praticamente todos os dias. E foi isso, junto com as pequenas rotinas de cuidado, que me ajudou a continuar.

O período de provas: uma maratona de resistência

Chegaram dezembro, janeiro e fevereiro — meses dedicados exclusivamente a provas. Eu acumulava disciplinas pendentes do semestre anterior, somadas às cinco da Dallara. No total, eram oito provas. A estratégia era clara: priorizar as disciplinas com maior peso na nota final.

Ainda assim, fracassei em algumas provas. Passei em outras. E repetia mentalmente: “quem vive de bolsa não pode errar; precisa passar para continuar estudando e para continuar comendo”.

A aprovação em Chassis Design

Apesar de todas as dificuldades, Chassis Design trouxe uma vitória marcante. A prova prática simulava um problema real da Nascar, exigindo diagnóstico, cálculo e solução. Propus uma adaptação ousada — uma gambiarra consciente — e deu certo. Passei. Com uma nota modesta, mas passei. E isso salvou minha moral naquele semestre.

Conclusão: um semestre duro, mas definitivo

O semestre em Parma foi, sem dúvida, um dos mais difíceis da minha formação. Nova cidade, rotina pesada, insegurança financeira, ansiedade acumulada e uma carga acadêmica sufocante formaram um coquetel explosivo.

Mas, mesmo nos piores dias, havia progresso. Havia aprendizado. Havia pequenas vitórias — como a aprovação em Chassis Design — e pequenos refúgios, como o bar Tapas, que me lembravam que a vida não pode ser só prova, trem e PDF.

Nada novo sob o sol, como digo no vídeo. Apenas mais um capítulo de uma jornada que combina automóveis, estudo intenso e, acima de tudo, resistência emocional.


🎥 Assista à Parte 7 no meu canal Carros Infoco

👉 Vídeo completo: https://youtu.be/SvMWpQr7LYg