Engenharia Automotiva na Itália – Parte 11: A Síndrome do Menino Charlinho e a Luta Para Chegar ao Doutorado
A vida acadêmica no exterior costuma ser romantizada. As fotos em cidades históricas europeias, as bibliotecas centenárias, o glamour silencioso da pesquisa científica e o brilho no olhar de quem conseguiu “chegar lá”. Mas, por trás dos bastidores, existe uma realidade que raramente aparece nas redes sociais: pressão, incerteza, burocracia, sacrifício financeiro e uma dose perigosa de sorte.
Neste artigo, conto o episódio “Síndrome do Menino Charlinho”, parte da série Engenharia Automotiva na Itália. Aqui, Anderson Luiz Dias — engenheiro mecânico formado pela UFC, pós-graduado pela Universidade de Modena e hoje doutorando na Itália — narra com honestidade brutal os bastidores da reta final do seu mestrado, o combate contra provas difíceis, o risco real de perder o financiamento e o peso emocional de sobreviver sozinho em outro país.
Prepare-se para uma jornada caótica, sincera e profundamente humana.
Quando o Sonho Vira uma Contagem Regressiva
O episódio começa logo após um estágio na Fórmula 1 — um momento que deveria abrir portas, mas trouxe também uma notícia dura: o financiamento estava acabando. Em outras palavras, o tempo para se formar e regularizar a situação acadêmica estava correndo perigosamente rápido.
Faltavam apenas três disciplinas. Uma delas, Vibrações, já havia sido vencida. Na teoria, deveria ficar mais fácil. Na prática, quem vive academia sabe: quando você pensa que complicou, complica ainda mais.
Ao mesmo tempo, encontrar estágio se mostrava quase impossível. Currículo, networking, consultorias, contatos… nada funcionava. Sem estágio, sem diploma. Sem diploma, sem visto. O risco real de ser obrigado a deixar o país aparecia no horizonte.
Nesse contexto aparece o professor Rombo, oferecendo um possível projeto de doutorado com a professora Silvia, atual tutora do Anderson na Itália. A resposta dele foi imediata: “Sim, quero”. Aquela proposta era mais que uma oportunidade — era uma tábua de salvação.
A Tese: Um Velho Tema, Uma Nova Batalha
Para concluir o mestrado, ainda faltava a tese, que acabou derivada da pesquisa de graduação sobre ruído de freio usando elementos finitos no ANSYS.
A nova versão envolveria materiais sustentáveis, alinhando simulação estrutural com tendências ambientais — algo muito valorizado na engenharia europeia. Com apoio de um professor do Ceará, Anderson iniciou uma série de simulações enquanto equilibrava estudos para as provas.
As Provas: Reprovação, Pressão e a “Síndrome do Menino Charlinho”
A primeira prova enfrentada foi a de Materiais — e o resultado foi uma reprovação. Sem bolsa, trabalhando paralelamente e com a pressão do financiamento prestes a acabar, a situação ficou crítica.
É nesse momento que surge a expressão irônica “Bancar o Menino Charlinho”: apelar para o lado humano explicando sinceramente a situação de dificuldade extrema.
Mas aqui não era drama: era realidade.
Sessões de discussões com professores foram essenciais para manter alguma chance de aprovação. Alguns docentes demonstraram empatia; outros, frieza. Ainda assim, o esforço constante permitiu avançar.
Sozinho Contra o Sistema
Além das provas, havia trabalhos práticos, relatórios, simulações e experimentos — muitos deles feitos em grupo pelos demais alunos. Anderson fez tudo sozinho, porque precisava gerenciar prioridades e tempo.
A solidão acadêmica é uma realidade para muitos estudantes internacionais: idioma, falta de rede de apoio, restrições financeiras e pressão emocional criam um cenário difícil de explicar, mas fácil de sentir.
O Encontro com a “Eu Bicicleta”
Um dos momentos mais curiosos foi o encontro com uma colega chamada Aybike (apelidada de “Eu Bicicleta”). Durante a prova, enquanto Anderson se esforçava honestamente, ela recebeu respostas pelo celular. Ela passou; ele não.
A situação revela uma verdade incômoda: quem joga pelo certo muitas vezes paga mais caro.
A Prova Oral: Um Duelo
A prova oral de Materiais se transformou em um embate. Instruções confusas e expectativas desalinhadas levaram a uma situação tensa. Em determinado momento, foi necessário explicar claramente:
“Se eu não alcançar os critérios, cortam meu dinheiro. Cortar meu dinheiro significa não comer.”
Essa sinceridade, mais uma vez, mudou o rumo da situação. Os professores aceitaram somar o desempenho da prova oral com o da futura prova escrita. E foi nessa escrita que finalmente veio a aprovação com 18 pontos.
Críticas ao Ambiente Acadêmico
O relato inclui também uma reflexão dura sobre a engenharia: falta de empatia, visão limitada, discursos vazios sobre diversidade. Embora universidades falem sobre inclusão, muitas vezes não conseguem lidar com as diferenças reais quando elas aparecem.
Fim do Curso: Artigo Publicado e o Desafio Final
Após concluir a disciplina de CAD — com seus impressionantes 380 slides — Anderson conseguiu avançar na tese, que envolvia desgaste de borracha com inteligência artificial.
Um marco importante foi a publicação de um artigo derivado da pesquisa, um dos “filhos” da tese.
Mas nem tudo estava resolvido: o prazo de estadia na residência estudantil estava chegando ao fim. Era preciso sair e, ao mesmo tempo, continuar estudando, pesquisando e… trabalhar.
Trabalhando Como Magazineiro: A Realidade do Imigrante
Para se sustentar, Anderson trabalhou como magazineiro na Itália — um trabalho pesado e pouco reconhecido. Essa experiência trouxe reflexões sobre a dificuldade enfrentada por imigrantes que chegam ao país para fazer “qualquer trabalho”.
Essa história será aprofundada no próximo episódio da série.
Conclusão: A Vitória Está no Caminho
Este episódio revela que a conquista de um diploma não representa apenas domínio técnico. Representa:
- superação,
- resistência emocional,
- criatividade diante das dificuldades,
- e a capacidade de seguir em frente mesmo quando tudo parece desabar.
Anderson chegou ao doutorado não porque teve caminhos fáceis, mas porque encontrou soluções mesmo quando não havia nenhuma visível. É essa jornada, e não apenas o título, que faz toda a diferença.
Nos próximos episódios, virão mais histórias sobre trabalho, tese, apresentação e os bastidores da entrada no doutorado. A saga continua.
