Eu Sou um Ex-Contínuo da Fórmula 1 — A Verdade Sobre Meu Estágio na AlphaTauri
Este é o capítulo 9 da série “Engenharia Automotiva na Itália”, narrando minha experiência real no estágio da Fórmula 1 na AlphaTauri — desde a expectativa, passando pelos choques de realidade, até o desfecho nada glamouroso. Um relato sincero e completo para quem sonha trabalhar no automobilismo europeu.
Depois de anos estudando engenharia automotiva na Itália, passando por reprovações, crises emocionais e uma luta constante para me manter financeiramente, finalmente chegava o momento que eu perseguia desde 2012: meu estágio na Fórmula 1. Algo que, por anos, parecia um sonho distante. Mas, como toda boa história, a realidade é muito mais complexa do que a imaginação permite.
Este artigo é baseado na Parte 9 da minha série no canal Carros Infoco (acima), onde conto tudo que vivi durante meu estágio na AlphaTauri e o que aprendi com essa experiência.
1) Do Summer Festival à Esperança Renovada
No capítulo anterior, eu havia voltado do Summer Festival — evento no qual conheci pessoalmente a responsável de RH do programa de estágio da Fórmula 1. Naquele momento, coloquei toda minha expectativa nessa oportunidade, porque já não conseguia emprego em lugar nenhum. Eu via no estágio a chance de ser absorvido pela F1 nem que fosse por um contrato curto. Nos meses seguintes, continuei estudando para as provas que faltavam do meu mestrado, enquanto respondia aos e-mails do RH da F1. No formulário de seleção de equipe, escolhi a Haas por estratégia: menos concorrida que Ferrari e Alfa Romeo, e com chances mais realistas de me aceitar. Entretanto, numa reunião com coordenadores, descobri que meus colegas haviam desistido do estágio — supostamente abrindo mais oportunidades para mim.
2) A Primeira Reviravolta: Fui Alocado na AlphaTauri
Quando finalmente recebi a resposta oficial, não veio uma vaga na Haas. O e-mail dizia:
“Parabéns, você foi selecionado para a AlphaTauri.”
Contestei, dizendo que tinha escolhido outra equipe. A resposta foi simples e direta: as outras equipes não aceitaram ninguém. Apenas a AlphaTauri topou receber um estagiário naquele período. Foi o primeiro sinal de que eu não teria controle real sobre nada.
3) Atrasos, Enchentes e Preparativos
Uma forte enchente atingiu a região de Imola e Faenza, atrasando todo o processo de confirmação. A bolsa exigia que a equipe garantisse meu alojamento, o que se tornou difícil em meio ao caos. No fim, meu estágio foi confirmado para 1º de fevereiro, com a equipe cobrindo meu Airbnb.
4) A Entrevista com o Gestor — e a Promessa de Funções
Recebi uma chamada do gestor do setor de estratégia. Durante a conversa, ele explicou minhas funções:
- Análise de dados pré e pós-corrida (relatórios, gráficos, índices)
- Pesquisa com Inteligência Artificial para apoiar análises estratégicas.
Na hora, fiquei animado. Era minha chance. Mas, internamente, fiquei com uma pulga atrás da orelha sobre a parte de IA — afinal, eu estava apenas começando a estudar esse assunto. Talvez esse tenha sido meu erro: não ter deixado claras minhas limitações.
5) Primeiro Dia em Faenza: O Banho de Água Fria
A AlphaTauri cumpriu tudo: meu Airbnb era confortável, perto da estação. Cheguei cedo no primeiro dia, extremamente focado. Fiz o onboarding, assinei contrato e me apresentaram à fábrica. Mas, ao contrário do que se imagina, não achei nada de extraordinário. Já tinha visto fábricas automotivas antes — o encanto não existia mais.
Ao chegar ao setor de estratégia, recebi meu primeiro choque: Eu não faria análise nenhuma. Faria gráficos. Gráficos. No Power BI. Só isso.
Era trabalho de escritório — não de engenharia. E isso me atingiu como um balde de água gelada. Eu tinha ido para a Itália estudar engenharia automotiva, não para virar um operador de dashboards.
6) Trabalho Rápido Demais — e Longos Períodos Sem Tarefas
No primeiro dia, terminei tudo em poucas horas. No segundo, também. Meu setor não tinha atividades complexas. Quando tentei conversar com colegas para aprender algo técnico, descobri que um deles sequer entendia de carros — era matemático, focado apenas em estatística. Outro trabalhava com pneus, mas ainda assim distante do tipo de trabalho que eu esperava fazer. Ninguém ali mexia com dinâmica veicular, aerodinâmica ou qualquer coisa relacionada ao meu background.
7) A Semana do GP: A Sala do Rádio
Durante o GP do Texas, fui designado para monitorar o rádio de um piloto usando uma plataforma de transcrição. Foi divertido, mas superficial. Novamente, nada de engenharia. Nada que exigisse meus anos de estudo. A parte mais legal era poder assistir a corrida de dentro da equipe. Mas profissionalmente, eu não estava crescendo em nada.
8) A Conversa Sobre Efetivação
Depois de alguns dias, perguntei ao meu chefe sobre a possibilidade de estender meu contrato. Ele respondeu:
“Eu nunca concordei com você ficar só um mês. Queria que você ficasse até o fim da temporada.”
Fiquei eufórico. Mas depois o RH me contou a verdade: O estágio original era de DUAS semanas. A AlphaTauri pediu para aumentar para um mês, porque duas semanas seria ridículo. Ou seja, não havia plano nenhum de absorção real. Era só uma formalidade.
9) O Segundo Choque: O Projeto de IA Não Existia
Quando perguntei sobre o tal projeto de Inteligência Artificial, o chefe respondeu:
“Que time? Você vai pesquisar sozinho.”
E então explicou que eu deveria “pesquisar inteligências artificiais que lessem rádios de corrida, analisassem regulamentos e identificassem problemas dos pilotos”.
Expliquei que isso era impossível sem softwares dedicados. O que ele queria não era uma IA — era um software real.
No fim, recomendei o Microsoft Copilot, única solução que realmente se integrava ao sistema interno deles.
10) O Fim: A Não-Efetivação
Na última semana, o RH me chamou para uma reunião. O veredito:
“Infelizmente, não vamos te aproveitar.”
A justificativa oficial incluía:
- Eu tinha entrado por processo externo, não interno;
- O teto de gastos da equipe;
- A “falta de justiça” em me manter sem uma seleção deles.
Disseram que eu tinha impressionado o chefe e que isso “poderia ajudar no futuro”. Meses depois, apliquei para uma vaga real — e nem fui chamado para entrevista.
11) Conclusão: Duas Tragédias da Vida
Voltei para Parma frustrado, revoltado e psicologicamente esgotado. O estágio que me motivou a atravessar o oceano, estudar na Itália e suportar anos de dificuldades, havia sido raso, mal planejado e incapaz de oferecer experiência de verdade em engenharia.
Aprendi, ali, que existem duas tragédias na vida:
- Não conseguir o que se quer.
- Conseguir.
Eu consegui — e descobri que nem sempre o que queremos corresponde ao que precisamos.
Vejo vocês na próxima parte.
