Engenharia Automotiva na Itália – Parte 12: TODO MUNDO TEM O 7×1 QUE MERECE
Com alguma frequência em meu curso de engenharia automotiva na Itália eu repeti:
“Eu não tenho vida, eu tenho sobrevida.”
A frase atravessa este capítulo como uma barra estabilizadora atravessa um eixo: de um lado segura o corpo, do outro entrega a verdade crua da trajetória. Este texto é sobre formatura, fome e forma — de caráter. Sobre o dia em que o placar voltou a ser 7×1, mas a gente entendeu que, às vezes, o gol de honra sai contra. E, mesmo assim, a partida não acaba ali.
O aquecimento: reclusão, tese e o fio de cobre que ligava Brasil e Itália
De junho a novembro, a vida social ficou no cavalete. Enquanto a casa virava garagem fechada, eu escrevia e validava uma tese que nasceu no Brasil (UFC) e ganhou carenagem nova na Itália: materiais de atrito com fibra de coco aplicados a lonas de freio — revisão bibliográfica robusta, dados adicionais e simulações rodando num computador remoto no Ceará. À noite, projeto de pesquisa do doutorado; de dia, depuração da escrita; no intervalo, testes e mais testes. O cronograma era um ciclo Otto sem folga de válvula: admissão de tarefa, compressão de prazos, combustão de ansiedade e escape de cansaço.
Do outro lado do cabo, o laboratório: desgaste de borracha — com foco em pneus — e inteligência artificial para enxergar padrões onde, a olho nu, só há ruído. Dois ambientes, dois relógios, uma cabeça. E uma conta bancária minguando.
A luz de reserva acende: orçamento no limite e o mapa da fome
A bolsa acabou. Com 35 anos, pedir ajuda à família doeu mais do que freada sem ABS no molhado. Supermercado virou ciência de otimização: atum + arroz ou atum + pasta, carne só quando “sobrava”. Pizzaria e fast-food? Só lembrança. Quando a luz de reserva já piscava, veio o desvio de rota que eu nunca imaginara na minha curva de aprendizado: Caritas. Cadastro feito, cartão em mãos, e a descoberta que me derrubou um preconceito antigo: eu nunca tinha comido tão bem, de forma tão saudável, quanto naquele refeitório social.
Foi uma experiência antropológica real, com estudantes africanos, italianos pobres, imigrantes ucranianos, moradores de rua. Um mosaico humano que ensinava mais sobre mobilidade social do que qualquer paper. Entre a tese, o projeto e o prato posto, aceitei um part-time de magazineiro: EPIs por minha conta, 150 euros/mês, turno que começava às 6h e terminava às 10h. Paletes, caixas, vidros frágeis e um chefe doente de metas e burnout, sempre gritando. Vi ali um traço comum e triste: gente destruída pelo capitalismo, virando turno, sem dormir, comendo mal. O corpo dobra, o dente cede, o humor some. Eu me refugiava em podcasts e no gesto quase meditativo de organizar mercadorias como quem tornea uma peça até ela assentar. Não era glamour. Era sobrevivência.
Vistoria pré-pista: como funciona a formatura (e por que o “gol contra” doeu)
Na Itália, o coordenador avalia e antecipa um intervalo de nota provável para a tese; no dia da apresentação, uma cerimônia. Terno bem cortado, palco, cronômetro. O parâmetro que eu ouvi: “com esta tese você fica em 90 ou 91” (no sistema que vai de 89 a 110; 110 com láurea). Eu nunca tinha me importado menos com solenidade: carregava frustração pelo curso e um cansaço que nenhum energético resolvia.
A sequência foi um desfile de slides burocráticos: apresentações artificiais, tempos estourados, pouca clareza. Quando a minha vez chegou, 13’27” viraram 12’30”: direto ao ponto, referências, conclusão — feito. Almoço, retorno, chamada de nomes. 110. 105. 100. Eu torcia para ficar por último e me esconder no ruído. Fui o quinto. A fórmula do anúncio já estava decorada quando veio o veredito:
“89.”
O limite inferior. O 7×1 reencenado — com gol contra no fim. O barulho do auditório ficou igual ao de motor cortado no box: silêncio de compressão. A frustração foi real. Mas a vida seguiu.
Bandeira quadriculada (mas sem pódio): papel na mão, cabeça em outro lugar
O diploma chegou depois — e sem nota impressa, para minha sorte. O papel não carrega o que importa, mesmo: o que a gente se torna no processo. O capítulo do mestrado se encerrou sem epílogo épico, mas com uma mudança de pista já alinhada no grid:
- Projeto de doutorado aprovado (com co-tutoria Brasil–Itália).
- Ensaios diários, áudios longos com discurso e estratégia.
- Contatos com professores e checagem de maquinário.
Passei. Com bolsa. No rodapé da classificação, como quase sempre. E quando o colega cearense desistiu para dar aula no IF, assumi também o projeto dele. A responsabilidade dobra; a inércia, não.
Pit stop humano: a noite na casa da orientadora
Acabando o contrato do alojamento em Parma, precisei de uma noite de ponte até entrar no alojamento de Brescia. A resposta oficial: “Não”. A resposta humana veio de onde menos se espera (e de onde mais deveria vir): a minha orientadora me acolheu. Dormi na casa dela, conheci os filhos, fomos ao mercado, comemos polenta. Em 24 horas, a vida deu um rolê aleatório que nenhum roteirista escreveria. Foi ali que notei: o mestrado tinha acabado. E o doutorado começara não no laboratório, mas naquele gesto.
O 7×1 que a gente merece (e por que ele não é o fim)

“Todo mundo tem o 7×1 que merece.” Não é um bordão de derrota; é o oposto. É aceitar que a vida não é campeonato por pontos corridos. É mata-mata de resiliência. A gente tomou oito, sim — porque o gol de honra saiu contra. Mas o placar oculto, aquele que não aparece no diário oficial da universidade, marcou outros números:
- 1 tese escrita sob pressão sem romper a ética;
- 1 rede de apoio construída quando o sistema falhou;
- 1 trabalho que valeu mais pela lucidez do que pelo dinheiro;
- 1 doutorado aprovado e já com dois projetos para tocar;
- ∞ aprendizados sobre classe, imigração, comida e dignidade.
Se o diploma diz “Mestre em Engenharia Automotiva”, o verso invisível anota “Mestre em persistir”.
O que fica para quem quer fazer Engenharia Automotiva fora do país
- Entenda os sistemas locais (avaliação, moradia, apoio estudantil). Evita parte das frustrações.
- Plano financeiro pessimista. Considere trabalhos de base, altos e baixos de bolsa e custos de moradia.
- Rede é ativo: professor, colega, entidade social, compatriota — gente salva projeto.
- Proteja a saúde mental. O mito do “24/7” quebra mais motores do que turbina.
- Seja humilde para recomeçar: da F1 ao estoque, o que importa é não parar o carro.
- Escreva: tese, diário, blog. Escrever organiza cabeça e faz lastro.
No fim, o 7×1 que a gente “merece” não é castigo; é curva de aprendizado sob chuva. Cada volta seguinte acontece melhor.
Epílogo: por que continuo contando essa história
Porque a indústria automotiva — e a academia — são sistemas técnicos habitados por pessoas. E pessoas comem, cansam, erram, aprendem, ajudam. Esta série não é um manual de sucesso; é um diário de torque humano. A Parte 12 fecha o mestrado com nota baixa e valor alto. A Parte 13 começa no doutorado, com poucas certezas e muito trabalho. E, como sempre, toca pro pai.
