Engenharia Automotiva na Itália – Parte 13: Engenheiro Ruim, Mas Bom Pesquisador
Chegar ao fim de um ciclo acadêmico costuma produzir uma sensação dupla: alívio e espanto. Alívio porque a etapa finalmente termina; espanto porque, quando olhamos para trás, percebemos que nada saiu como imaginávamos. Neste capítulo da minha jornada pela engenharia automotiva na Itália, eu entro numa reflexão que, por muito tempo, evitei enfrentar de frente: talvez eu não seja um bom engenheiro — talvez eu seja, na verdade, um bom pesquisador.
Pode parecer uma provocação ou falsa modéstia, mas é uma constatação construída ao longo de três anos intensos, sofridos e profundamente transformadores. Aqui, neste relato, quero registrar o que ficou — não o caos, não as notas, não os surtos, mas as conclusões que só vêm com o distanciamento. E, principalmente, as lições que este período me ensinou sobre quem eu sou dentro da engenharia.
O método que não encaixava
Começo pela autoavaliação: eu simplesmente não me adaptei ao método de ensino italiano. Vindo de Fortaleza, formado em escola e universidade cearense, meu processo sempre foi concreto: teoria aplicada a cálculos, livros, métodos, ferramentas matemáticas. Tudo seguia uma lógica técnica.
Na Itália, não. Lá o modelo muda radicalmente: o foco está em decorar teoria, repetir frames teóricos e, só depois, encaixar a matemática. Enquanto meus colegas italianos pareciam já treinados nesse estilo desde a adolescência, eu precisava reaprender a estudar — e isso durante um mestrado de ritmo acelerado, cheio de pressão e com a bolsa sempre ameaçada. Era o pior momento possível para reinventar método.
E quando finalmente entendi que precisava mudar, já estava psicologicamente destruído. Eu até tentei flexibilizar: estudar mais de um conteúdo por dia, alternar cálculos e leituras, adaptar o foco. Mas meu cérebro insistia em trabalhar de forma compartimentada. Se eu começasse o dia com Recodynamics, meu corpo se recusava a encarar Materiais na mesma tarde. Flexibilidade, para mim, era quase uma ofensa física.
O efeito colateral da idade e da exaustão
Tem outro fator que pouca gente admite: estudar depois dos 25 é diferente. A energia não é a mesma, o ritmo não é o mesmo, o desgaste é maior. Você começa a estudar “contando energia”, medindo a bateria social, barganhando consigo mesmo.
Esse desgaste pesa ainda mais quando você está em outro país, sozinho, e com um senso de urgência desesperador — afinal, perder uma prova pode significar perder a bolsa, perder o visto, perder tudo.
Eu também carregava um problema que só percebi tarde demais: bateria social baixíssima. Eu não conseguia fazer contatos, não tinha paciência para socializar, nunca queria sair. Entrava ano, saía ano, e eu seguia no mesmo padrão: casa, estudo, casa. Até eventos óbvios — como um carnaval na rua — passavam despercebidos por mim.
Isso cobrou um preço profissional: fazer networking na Europa é praticamente obrigatório. A engenharia automotiva, especialmente, se alimenta de contatos. E eu me mantive numa toca emocional que dificultou minha entrada no mercado.
Hostilidade, pressão e alienação
Outro ponto que deixou marcas foi a hostilidade que senti na universidade. A relação professor-aluno, na graduação italiana, é distante, fria, quase militar. Houve casos de professores que sequer respondiam a um cumprimento. Para alguém vindo da UFC — onde a relação é infinitamente mais humana — aquilo era um choque cultural diário.
Some a isso a pressão constante por notas: passar não basta, você deve passar bem. Passar com 24 é sinônimo de incompetência; com 25, falta de esforço. O sistema inteiro empurra o aluno para a autocrítica destrutiva.
Além disso, muitas disciplinas eram pura decoreba. Vibrações, dinâmica veicular, matérias alienadoras, salas desconfortáveis, aulas corridas e práticas docentes fracas — especialmente na etapa da Dallara. Paradoxalmente, a parte que deveria ser o ápice técnico do curso foi, para mim, a mais fraca no aspecto pedagógico.
Quando a estrutura não favorece
A logística também me punia. Enquanto italianos que viviam perto da Dallara chegavam descansados, eu acordava às cinco da manhã, pegava trem, depois ônibus, e, muitas vezes, chegava duas horas antes da aula por pura ausência de horários. Esse esforço físico constante drenava minha capacidade cognitiva.
Chegava à aula exausto. Saía pior ainda. A performance naturalmente caía. O corpo tem limites — e o meu já tinha passado dos limites há meses.
O paradoxo: ruim engenheiro, bom pesquisador?
Mas aí vem o que realmente importa nesta Parte 13. Depois de tudo isso — e olhando com oito meses de distância do fim do curso — percebo que, talvez, a dificuldade não estivesse apenas no curso, mas no meu encaixe dentro do curso.
Eu não sou, nem nunca fui, um bom engenheiro “tradicional”. Não sou o cara que decora fórmula, que navega com naturalidade por cinco temas simultâneos, que performa bem em provas cronometradas.
Mas sou bom em algo que descobri pelo caminho: sou um bom pesquisador.
- Sei falar em público.
- Sei escrever relatórios técnicos com clareza.
- Sei sintetizar informação.
- Mexo bem com ferramentas CAE: Ansys, Abaqus, Catia.
- Tenho disciplina, foco e determinação acima da média.
- Não tenho medo de mergulhar em bibliografia pesada.
Essas habilidades não me fizeram brilhar na engenharia automotiva “de prova”, mas são vitais para um pesquisador. E é justamente na pesquisa — agora no doutorado — que sinto que minhas competências finalmente se encaixam.
Sobre universidades brasileiras e italianas
Há outro ponto importante: no Brasil, especialmente nas federais, aprendemos a tirar leite de pedra. Mesmo com estrutura inferior, nossa formação é sólida, técnica, resiliente. Na Itália, vi software pirata sendo usado, vi lacunas enormes de metodologia e vi práticas que seriam consideradas absurdas na UFC.
Isso me fez enxergar que a engenharia brasileira é mais forte do que imaginamos. E que, talvez, eu tenha sido duro demais comigo mesmo durante o processo.
No fim das contas…
Depois de três anos de tempestade — de surto, de lágrimas, de noites em claro, de trens madrugados, de frustrações — o que sobra é a conclusão mais honesta que posso registrar:
Eu nunca fui um bom engenheiro. Talvez eu seja um bom pesquisador.
E isso, hoje, começa a ser suficiente.
A jornada continua. E nos vemos no próximo capítulo.
