Engenharia Automotiva na Itália – Parte 6:A TRANQUILIDADE é TRÁGICA, NUNCA ESTEJA TRANQUILO…NUNCA!
A Tranquilidade é Trágica: Lições de Uma Summer School na Engenharia Automotiva Italiana
Estudar no exterior costuma ser associado a descobertas, viagens, ampliação de horizontes e crescimento acadêmico. Mas a realidade de quem depende de bolsas de estudo, enfrenta barreiras culturais e vive sob constante pressão é bem diferente. No sexto capítulo da minha série sobre o mestrado em Engenharia Automotiva na Itália, compartilho uma das experiências mais intensas — e emocionalmente desgastantes — que vivi durante a formação: a Summer School organizada pela Universidade de Bolonha, em Bertinoro.
Mais do que uma semana de aulas, aquela experiência revelou o peso invisível que carrega quem estuda com financiamento estudantil e não pode se dar ao luxo de relaxar. Como digo no vídeo: “a tranquilidade é trágica, nunca esteja tranquilo.”
Chegada à Itália e contexto da Summer School
Para quem não acompanhou os vídeos anteriores, meu nome é Anderson. Sou engenheiro mecânico formado pela UFC e cursei a Laurea Magistrale em Racing Car Design na Universidade de Modena. Atualmente, sigo meu percurso no doutorado — uma maratona intelectual que chamo carinhosamente de “tortura acadêmica”.
No vídeo anterior, conclui a narrativa sobre minha experiência como guia voluntário na Pagani Automobili. Antes de chegar ao segundo ano do curso, contudo, havia outros episódios importantes a compartilhar — entre eles, a Summer School.
Até ser selecionado, eu sequer sabia que esse tipo de programa existia. A seleção ocorreu no fim do semestre, em maio, oferecendo uma bolsa para participar de duas semanas de aulas e atividades acadêmicas em Bertinoro, uma região montanhosa e belíssima próxima de Forlì. A Universidade de Bolonha administra um castelo na região, onde hospeda os alunos durante o programa.
Perdi o horário da seleção — algo coerente com meu histórico de TDAH — mas entrei correndo na reunião online e, improvisando como sempre, acabei sendo selecionado, ainda que em último lugar. Isso bastava.
Bertinoro: beleza, rotina acadêmica e pequenas ilusões
Em julho, após uma viagem de trem até Bolonha e depois ônibus até as montanhas, cheguei a Bertinoro. O local era deslumbrante: suítes individuais, refeições completas, vinho nas refeições, clima ameno e uma vibe que prometia, pelo menos visualmente, um descanso merecido. Brinquei, inclusive, que teria “putaria, suruba, jovens” — e obviamente nada disso aconteceu.
A rotina consistia em aulas durante o dia e tempo livre à noite. Como Bertinoro é pequeno, as atividades se concentravam em pequenas feiras e eventos culturais. A programação acadêmica era intensa: dinâmicas veiculares, manufatura, materiais, fibra de carbono e colisões. Havia um curso particularmente bom sobre a indústria automobilística chinesa, que mencionei que traria ao meu blog quando tivesse tempo — algo raro no doutorado.
Mas o ponto alto da Summer School eram as visitas técnicas.
Visitas a Lamborghini e Ducati
Entre os passeios previstos, visitamos a Lamborghini. Vi de perto a linha de montagem da Urus e o museu histórico, onde toquei um Diablo pela primeira vez. A linha de montagem não tinha nada de misterioso: automação moderada e muito trabalho humano — mais mulheres do que eu imaginava para um setor ainda tão masculino.
Também visitamos a Ducati. Vi dinamômetros de motores de competição, centros de desenvolvimento e, novamente, pude tocar nas motos — algo que nunca acontecia nos eventos da Pagani.
Embora tecnicamente enriquecedoras, essas atividades drenavam minha bateria social. Ao final de cada visita, eu só queria me trancar no quarto e descansar.
O golpe: problemas na renovação da bolsa
Mas a pior parte da experiência não estava nas aulas nem na convivência. Estava no calendário.
Julho é o mês-chave para renovação das bolsas de estudo na Itália. Para manter o benefício, é necessário enviar documentação de renda do ano anterior, traduzida e validada. Por ser extremamente prevenido, eu sempre começava o processo meses antes.
Mesmo assim, ali, no meio da Summer School — quando finalmente parecia que eu teria alguns momentos de paz — recebi o comunicado da instituição: meus documentos tinham sido considerados inconsistentes.
A alegria acabou instantaneamente.
Um detalhe técnico havia sido registrado de forma incorreta no imposto de renda do meu irmão, que estava desempregado na época. Algo que havia passado no ano anterior, mas que não passou na nova análise, possivelmente porque meus documentos foram enviados para um alojamento diferente, em Parma, onde eu estudaria no semestre seguinte.
A sensação foi devastadora. Quem estuda com bolsa não pode relaxar — nunca. Cada detalhe administrativo pode definir se você continua morando no país ou volta para casa.
Negociei, chorei, discuti, insisti. Eles estenderam o prazo “generosamente”. Meus pais reenviaram documentos, tradutora refez tudo, DHL levou o processo por uma fortuna. Consegui regularizar a situação — mas o impacto emocional ficou.
A tranquilidade durou pouco.
E eu não estava sozinho: um colega colombiano, que hoje trabalha na CFMoto, também teve o mesmo problema. Lembro do olhar perdido dele, idêntico ao meu.
A prova “apenas formal” — e a humilhação final
Ao final da Summer School, fomos informados de que haveria apenas uma prova simples, “só para formalizar”. Em teoria, ninguém deveria ser reprovado.
Todos colaram.
Eu não.
Reprovei.
A prova era de marcar, mas quando anunciaram que alguém havia sido reprovado, eu já sabia que seria eu. Chamaram um mexicano também — mas ele conseguiu ser aprovado ao revisar algumas respostas com o professor. Eu não tive a mesma sorte. Fui aprovado apenas por conselho de classe, carregando a sensação de humilhação.
Depois de todo o estresse da bolsa, do desgaste social, das visitas, das aulas e do medo financeiro, ainda tive que lidar com uma reprovação simbólica.
Voltei para Modena completamente esgotado, mas pelo menos com a documentação da bolsa resolvida. Pouco depois, me mudei para Parma para iniciar o segundo ano do curso.
E esse é assunto para o próximo vídeo.
Conclusão: por que nunca estar tranquilo
A Summer School em Bertinoro foi, ao mesmo tempo, fascinante e emocionalmente exaustiva. As visitas técnicas foram ricas, as aulas interessantes, o ambiente lindo — mas a realidade de quem depende de bolsa é que nenhum momento de tranquilidade é realmente seguro.
A lição permanece:
estudantes internacionais que dependem de financiamento vivem em permanente estado de alerta.
E, sim, a tranquilidade é trágica — porque, quando ela chega, geralmente está prestes a acabar
