Engenharia Automotiva na Itália – Parte 8: QUEM SABE, SABE. QUEM NÃO SABE, ENSINA

O oitavo capítulo da série Engenharia Automotiva na Itália marca um momento decisivo da minha trajetória acadêmica: o último semestre letivo antes do estágio na Fórmula 1. É um período de transição, frustrações acumuladas, mudanças de atitude e uma luta intensa contra o cansaço emocional e acadêmico. Se nos capítulos anteriores a tônica era sobrevivência, aqui o tema é resistência — e o enfrentamento direto de um sistema que, muitas vezes, parece feito para esmagar quem está tentando aprender.

Neste artigo, conto como vivi o período entre fevereiro e julho de 2023: seis disciplinas pendentes, três cadeiras eletivas assistidas como ouvinte, reprovações sucessivas, desgaste psicológico e, ao final, a inesperada reviravolta proporcionada pelo Summer Jam da Fórmula 1.


O semestre começa: seis matérias pendentes e uma ilusão de controle

Ao final do semestre anterior, eu havia conseguido pontos suficientes para receber a segunda parcela da bolsa de estudos. Mas ainda faltavam seis disciplinas para completar o curso:

  • CAD (prova oral e prova no CATIA/3DEXPERIENCE)
  • Aerodinâmica Dallara
  • Aerodinâmica UniMore
  • Mechanical Vibrations
  • Materiais
  • Fibras de carbono

Sem aulas regulares, minha missão era simples apenas na teoria: estudar por conta própria e passar nessas seis provas. Paralelamente, três disciplinas eletivas chamavam minha atenção — Applied Vehicle Dynamics, Racing Management e Vehicle Components. Eu queria adicioná‑las ao meu histórico, mas a universidade não permitiu, já que eu tinha matérias pendentes. Acabei assistindo como ouvinte.

Essas eletivas eram interessantes, especialmente Vehicle Components, que trazia engenheiros convidados para discutir sistemas automotivos reais — baterias, motores, caixas de marcha para competição, eletrônica, rodas. Era um prato cheio para quem ama engenharia automotiva. Mas havia um custo: tempo. E tempo era a única coisa que eu já não tinha.

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As eletivas: aprendizado real, frustração crescente

O conteúdo das aulas foi, na maior parte, excelente. Mas assistir às aulas como ouvinte, enquanto todos os meus colegas conseguiam estágios e empregos em lugares como Porsche, Maserati e Ferrari, era doloroso. Eu estava sem emprego, com a autoestima abalada e com o semestre de provas chegando.

Enquanto meus colegas cresciam, eu sentia que meu mestrado se desfazia:

“Esse mestrado foi uma bosta, pra ser bem sincero.”

A gota d’água veio com uma vaga para a Fórmula Indy que eu queria muito, mas não podia concorrer por causa das matérias atrasadas.


Racing Tires: a prova que parecia nunca acabar

Racing Tires já era um tormento pessoal. Depois de duas reprovações, cheguei à terceira tentativa praticamente sem esperança. O professor — o mesmo de Applied Vehicle Dynamics — me deu carona até o circuito de Tazio Nuvolari, e no caminho perguntou se eu estava confiante. Eu disse que não.

Ele também já estava cansado de me ver naquela prova. Eu, muito mais.

A parte escrita me deu o mínimo necessário para ir para a prova oral. Na oral, o professor indicou imediatamente que eu tinha esquecido grande parte do conteúdo. Ao perceber que eu havia deixado em branco justamente o exercício que ele nunca explicava direito, ele me deu 18 pontos — e eu saí da sala aliviado, não feliz.

Era um passo, mas o caminho adiante continuava insuportavelmente longo.


O limite emocional e o estopim da terapia

A pressão acadêmica, o medo do desemprego e a perspectiva de ficar sem bolsa se acumularam. Eu estava exausto e ressentido. E um dia, a represa rompeu.

Surtei com minha psicóloga por WhatsApp, dizendo que não queria mais fazer terapia, que nada funcionava. Ela, preocupada, disse que não poderia simplesmente me desligar sem um termo. A resposta dela — firme, porém acolhedora — foi o estalo que eu precisava:

“Você terminou todos os seus relacionamentos para chegar onde chegou. Agora está prestes a abandonar o último que ainda te sustenta.”

Essa conversa me desmontou. Agendei uma sessão imediata. Ela me recebeu com calma, sem julgamentos. Esse momento marcou o início de uma mudança: não uma transformação milagrosa, mas uma nova postura. Eu ainda estava frustrado, mas comecei a encarar o mestrado com mais estratégia e menos desespero.


Materiais: a vitória pela repetição

A disciplina de Materiais era meu “chefão” pessoal — já eram sete reprovações. Mas aquilo acabou virando uma vantagem: ao repetir tantas vezes, eu comecei a decorar o padrão das questões. Finalmente passei, com uma nota alta, mas sem orgulho.
Só significava que eu tinha sobrevivido.

Com isso, me faltavam apenas 5 pontos para renovar a bolsa — e Aerodinâmica seria o próximo obstáculo.


Aerodinâmica UniMore: entre o fracasso e a classificação

Aerodinâmica na UniMore era uma disciplina muito mais estruturada do que na Dallara: apostila bem feita, teoria clara, cálculos coesos. Mesmo assim, reprovei na primeira tentativa… mas uma revisão do enunciado de uma questão por outro aluno me rendeu pontos extras. Isso me levou para a prova oral.

A oral consistia em perguntas diretas de dois professores, auxiliados por doutorandos. Quando me pediram para explicar a Boundary Layer Theory, respondi com o conteúdo completo do capítulo correspondente — mas, segundo o professor, aquilo “não era bem isso”. Foi uma discussão surreal.

Mesmo com as inconsistências, passei com 21 pontos — uma nota baixa, mas uma vitória enorme.


Aerodinâmica Dallara: a prova mais caótica de todas

Aerodinâmica na Dallara era um mosaico confuso de quatro disciplinas em uma: Aerobalance, CFD, Aeromap e Desenvolvimento de Produto. O curso era mal estruturado, cheio de slides e sem didática prática. E isso se refletiu na prova.

A primeira tentativa foi um desastre. Fui reprovado.

Na segunda, reprovei novamente — e discuti com um dos professores, que tentou me dar um sermão sobre “atitude”. Dessa vez, respondi com firmeza. Não aceitei a pressão emocional disfarçada de pedagogia. Quando deixei claro que estava ali para perseguir um objetivo — trabalhar na Fórmula 1 — a sala ficou em silêncio.

Eu saí reprovado, mas de cabeça erguida.

Com isso, chegou a hora do Summer Jam.


O Summer Jam 2023: o ponto de virada inesperado

O Summer Jam é a “festa da empresa” da Fórmula 1. Para mim, não era atração turística: era uma chance de fazer conexões reais.

A Fórmula 1 pagou voo, hotel, transporte — tudo. Em Milton Keynes, encontrei vários profissionais da área, bolsistas e, principalmente, a responsável pelo programa da bolsa. Meu objetivo era claro: contar minha história para ela e mostrar por que eu precisava daquela oportunidade.

Durante o trajeto até Silverstone, conversamos dentro de um Nissan Juke a 160 km/h. No evento, ajudei com a montagem, participei das atividades e, finalmente, tive uma conversa sincera com ela. Falei da minha trajetória, das dificuldades, da dedicação em manter a bolsa.

Ela ouviu. Entendeu. E me confirmou que a vaga do segundo semestre seria minha.

Voltei para casa feliz — pela primeira vez em meses.


Conclusão: o fim do semestre e o início de um novo capítulo

Assim terminou meu último semestre de aulas na Itália. Reprovações, crises, vitórias apertadas e um reencontro comigo mesmo no processo. A etapa seguinte seria ainda mais intensa:
meu estágio na AlphaTauri, tema do próximo capítulo da série.

Às vezes, como eu disse no vídeo, existem duas tragédias na vida de um homem:
não conseguir o que quer — e conseguir.

No meu caso, eu estava prestes a enfrentar a segunda.