Engenharia Automotiva na Itália – Parte 10: VOCÊ AINDA ESTÁ AQUI…SEM ESTÁGIO, SEM TESE E SEM BOLSA
Estudar engenharia em outro país parece roteiro de filme: laboratórios modernos, portas abertas na indústria, estágios dos sonhos. Mas a realidade, muitas vezes, cobra mais planejamento, resiliência e estratégia do que a gente imagina. Neste artigo, compartilho de forma direta e sem romantização como foi atravessar um dos momentos mais críticos da minha trajetória na Itália: fim do financiamento, nenhuma vaga de estágio em vista, uma tese por fazer e provas decisivas pela frente — tudo ao mesmo tempo. Se você está nesse caminho, aperte o cinto: aqui tem história real + lições práticas para te ajudar a não desistir quando o calendário e o extrato bancário parecem seus piores inimigos. (Baseado no meu monólogo no vídeo “Parte 10: Você ainda está aqui… sem estágio, sem tese e sem bolsa”.)
O cenário: fim de um ciclo… sem as peças essenciais
Voltei de um estágio que, na prática, rendeu menos do que eu esperava em termos de conhecimento de processos e de portas abertas. O resultado: retorno para Parma, foco nas três cadeiras finais (eu já tinha passado em Aerodinâmica) e a notícia dura de que não havia mais renovação de bolsa. Ou eu fechava tudo naquele ano, ou ficava literalmente sem recursos para continuar. Para piorar, eu não podia mais aplicar para a bolsa — período de financiamento encerrado. Eu precisava: 1) estágio, 2) tese e 3) passar nas últimas disciplinas.
Comecei então a atirar currículo para todo lado, com assessoria da própria instituição (formatação “ao gosto italiano”, preparação para entrevista etc.). A única oportunidade concreta surgida foi numa empresa perto da Suíça — impraticável para mim por falta de dinheiro para mudança. O resto foi silêncio.
Revirando o tabuleiro: priorizar para não quebrar
Com provas à vista, decidi matar a maior pedreira primeiro: Mechanical Vibrations. O professor havia mudado o formato: teoria + trabalho. Transformei o estudo numa rotina de “coreba” (escrever fórmulas e relações todos os dias). Fiz a prova e saí com nota boa. No trabalho, montei time (muitos colegas chineses já conheciam meu blog/LinkedIn), e acabei ficando com a apresentação. Eu sabia exatamente o que o professor perguntaria. Dei meu melhor, e fomos os primeiros a apresentar; a nota veio acima do esperado. Curiosidade: sem perceber, apresentei sentado, com a banca “abaixo”. O comentário pós-apresentação foi que “parecia uma aula”. O importante: passamos.
Essa vitória reorganizou o mapa: faltavam CAD e Materiais Compósitos. Mas a pressão voltou. Eu precisava urgentemente de estágio e tema/execução de tese. O coordenador tentou contatos; a consultoria de RH também. Nada. O relógio andava.
Quando a porta não abre, empurre: a tese, os relatórios e o “menino charlinho”
Cheguei ao ponto de readequar totalmente a postura: perder a vergonha, encarar reprovas como etapas, repetir provas até que eu passasse. O importante era não abandonar o processo. Em Materiais Compósitos, havia uma sequência de sete entregas (cerca de seis relatórios de ensaio + uma simulação em Abaqus), e eu precisei fazer tudo praticamente sozinho. Eu nem sabia operar o software no início. Estudei como outros alunos estruturavam o trabalho, não para copiar, mas para entender padrão de apresentação, tópicos e nível de profundidade. Entreguei tudo. Na prova escrita, fui mal (algo como 11/30), mas mudei a estratégia: transparência com o professor, explicando a situação de financiamento e meu prazo fatal. Era hora de compromisso e recomeço.
Em paralelo, comecei a buscar estágio e tema de tese por todos os lados. Coordenador? Tentou. Consultoria? Sumiu. Rede de contatos? Silêncio. A ansiedade bateu forte: “vou passar fome”. E, ainda assim, segui estudando para a prova oral de CAD (conteúdo amplo + prática no software).
O telefonema que muda tudo: a porta do doutorado
Em meio ao caos, entrou em cena um professor da graduação (morando na época na República Tcheca). Ele acompanhava de longe e sabia da dificuldade geral na Europa para conseguir emprego, mesmo com currículos fortes. Ele trouxe a proposta que mudou o roteiro: um projeto de doutorado em desgaste de borracha com foco posterior em pneus, em parceria com a Universidade de Brescia. O escopo era experimental, amplo e com aplicação automobilística. Eu disse “sim” antes do ponto final da frase. Enviei o currículo para a professora responsável, recebi o “sim” e passei a ter um norte.
O paradoxo: eu ainda estava sem estágio, sem tese e com duas provas em aberto. Mas a perspectiva do doutorado elevou o nível de clareza: o que eu preciso fazer hoje para estar pronto quando esta janela se abrir de vez?
Execução final: provas, tese, validação e um check-list para quem está no sufoco
No fechamento do ciclo, vieram as quatro validações que eu precisava: passei nas duas cadeiras restantes, entreguei a tese (base da minha monografia anterior na UFC, traduzida para o inglês e ampliada com simulações envolvendo materiais sustentáveis para compósitos de fricção em ruído de freio), montei o projeto e consegui validar um estágio. Não foi bonito nem romântico — foi possível. E o “possível” é o que vence no fim.
Checklist prático para quem está no mesmo barco
- Defina prioridades semanais: o que, se concluído, destrava o próximo passo (prova, relatório, vaga)? Coloque prazo realista e regra de revisão diária.
- Estudo ativo: resumos autorais, mapas de fórmulas, exercícios que espelham o tipo de cobrança do professor (se a prova é “coreba”, treine “coreba”).
- Transparência com docentes: explique contexto e peça orientação objetiva de como evoluir. Não é para pedir nota — é para pedir caminho.
- Rede de contatos funcional: peça introduções específicas (pessoas + posição + empresa + motivo) em vez de “qualquer coisa”.
- Portfólio orientado: projetos, relatórios e códigos organizados (mesmo simples) valem mais do que uma página de buzzwords.
- Plano B real: se a porta do estágio não abrir agora, o que você pode validar (projeto, pesquisa, iniciação em laboratório) para não parar?
- Saúde mental: disciplina sem descanso vira auto-sabotagem. Bloqueie micro pausas e rotinas mínimas (sono, alimentação, 10 min de caminhada).
O que aprendi (e que você pode usar hoje)
- Não terceirize sua urgência: consultorias e contatos ajudam, mas o relógio é seu. Você precisa de plano, cadência e métricas de progresso.
- Reprova não é sentença: é diagnóstico. Se cair, levante com protocolo: o que faltou, quem pode orientar, qual simulado/roteiro você vai repetir.
- Apresentação importa: boa fala não é frescura; é ferramenta. Se você sabe articular sua solução, já está meio caminho para convencer banca e recrutador.
- Aprenda o software “suficiente”: dominar 100% de Abaqus, CATIA ou CFD é uma jornada longa. Para passar e entregar, foque no caminho crítico do seu projeto.
- “Sim” rápido para oportunidades estratégicas: quando o encaixe aparece (tema, orientador, projeto), abrace e organize o restante em torno dele.
Fechamento: método vence o medo
Entre recomeços e improvisos, finalizei disciplinas, tese, estágio e abri a porta do doutorado. Se você está vivendo o mesmo aperto, leve isto: persistência não é andar no escuro para sempre; é caminhar com uma lanterna curta. Você só vê os próximos dois passos — e, muitas vezes, eles são o suficiente para te tirar do lugar. Pratique uma pergunta diária: qual é o meu próximo passo inevitável? Anote, execute e repita. O resto, a vida abre na marra.
Se quiser, posso transformar este artigo em um roteiro com tempos de fala, slides sugeridos e cards para redes sociais — é só me dizer que formato você quer priorizar agora: vídeo curto, carrossel no Instagram/LinkedIn ou um segundo post aprofundando a parte técnica (por exemplo, como montar um portfólio de projetos em engenharia automotiva).
Curtiu? Deixe sua pergunta nos comentários ou me mande uma mensagem: posso compartilhar os modelos de resumo, checklist semanal e estrutura de relatório técnico que usei nesse período.
